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A geóloga e professora da USP Adriana Alves alega ter sido vítima de racismo e machismo no Dueto Bar, próximo à universidade, no dia 8 de agosto. Adriana conta que não foi a primeira vez que viveu situação semelhante, de "viés racista". Confira a entrevista abaixo.

Quando o dono do bar fez o comentário racista, você estava sozinha?

Não, eu estava com um amigo chileno, que não entendeu absolutamente nada, e um amigo brasileiro.

E o amigo brasileiro compreendeu a situação?

Creio que sim. O Pedro ficava olhando para minha cara esperando um indicativo do que ele deveria fazer. Mas eu simplesmente travei.

Depois de você denunciar o dono do bar, como seus amigos se manifestaram?

Bastante gente se manifestou sobre parar de frequentar o bar, fazer um boicote. O que eu fico me perguntando... Eu não sei, nunca falei para as pessoas "boicote ao bar" nem nada disso, é uma iniciativa que partiu deles. Mas todos os meus amigos próximos, que sabem o quanto eu gostava do bar, tiveram a mesma reação.

Você acha que o comportamento machista e racista do dono do bar, que é holandês, vem de onde?

Acho que é um comportamento coisificado da mulher brasileira, no geral. O que a gente passa da mulher brasileira para o exterior é carnaval, é mulher pelada, e geralmente ela tem certa semelhança comigo. Junta tudo, na verdade, porque ele é uma pessoa desagradável, segundo boatos que vieram à tona depois. Mas passou da medida dessa vez.

Você já tinha passado por situações similares antes?

Já. Por exemplo, um cara me chamou para fazer um programa no ponto de ônibus uma vez. Aí eu falei: "Não sou prostituta". E ele falou: "Não sei por que você está indignada, mulher preta é pra comer, não pra casar". De viés racista, essa foi a segunda vez. Ele agiu na verdade como se estivesse escolhendo um escravo, né? Primeiro olhou meus dentes, perguntou se eu depilava ou não porque era importante para ele saber, e continuou. E quando eu não dei trela, ele falou: "Você tem pelo e os de baixo devem ser duros iguais aos da cabeça".

Quando ele falou isso, qual foi a sua reação?

Estava de fora do bar, a conta já estava paga para ir embora, e o Pedro, meu amigo, falou que precisava ir fumar um cigarro. Então a gente foi com ele fumar um cigarro na porta do bar, porque ainda estava aberto, mas a última pergunta que o proprietário fez foi "a última vez que eu gozei gostoso". Nessa hora eu falei: "Gente, eu preciso embora". Aí todo mundo notou que o meu silêncio não era de conivência, ou de aprovação, era de constrangimento. Tanto é que ele não falou nem boa noite. Ele se deu conta, eu acho, que passou dos limites, entrou no carro dele e saiu cantando pneu.

Você conseguiu fazer o boletim de ocorrência, o caso está sendo investigado?

Está sendo investigado. Isso aconteceu em uma quinta-feira, e eu cheguei em casa chorando pensando no que eu tinha feito de errado para dar a entender que ele poderia falar daquele modo comigo. Fiquei o final de semana inteiro pensando, refazendo as minhas ações, a minha postura, até chegar à conclusão de que eu não tinha feito nada de errado, e como um dono de estabelecimento ele não tinha esse direito. Na segunda-feira eu fiz o BO. Quer dizer, eu fui à Delegacia de Defesa da Mulher, a delegada entendeu que não era caso de agressão à mulher, mas o BO foi encaminhado para a delegacia comum. Meu advogado agora queria dar um passo atrás, pediu para instaurar o inquérito na delegacia da mulher, então o primeiro BO não foi pra frente, e o inquérito vai ser instaurado na delegacia da mulher. Mas o BO data do dia 13 de agosto, se não me engano.

Você espera indenização e retratação pública?

Retratação pública sim. Sobre indenização o meu advogado falou uma coisa muito séria. Eu falei pra ele que não quero indenização financeira, nada disso, só quero que ele reconheça que errou e como prestador de serviços ele não tem esse direito. O meu advogado, que é de uma ONG, falou: "Adriana, gente assim só aprende quando dói no bolso. Nem que você pegue e doe para uma ONG, doe para o que quer que seja". Mas não sei ainda. Na verdade, não queria que envolvesse dinheiro para as pessoas não acharem que existe algum viés interesseiro. Não preciso disso, não tenho por que dar o golpe em ninguém. Caso eu fosse indenizada, eu doaria o dinheiro integralmente.

Fonte : Pragmatismo Político

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