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Em agosto de 2010, a Fifa escolheu o Itaquerão, o estádio do Corinthians a ser erguido na Zona Leste de São Paulo, como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014 e palco do jogo de abertura. Desde então, duas questões pairam sobre o projeto. Seria possível construir um estádio para 65 000 pessoas em três anos? E como essa obra milionária seria financiada? Na semana passada, dois ¬fatos alimentaram essas dúvidas. Na quarta-feira, um acidente com um guindaste matou dois operários e provocou a paralisação das obras. A entrega do estádio, prevista para janeiro, poderá atrasar de um a três meses.

Oficialmente, a organização da Copa não admite tirar do Itaquerão a partida inaugural, em 12 de junho. Mas, nos bastidores, há a preocupação com a falta de margem de manobra em caso de novos problemas e já se discutem alternativas para abrigar o primeiro jogo, com o Brasil em campo. Dois dias depois do desastre, o Corinthians assinou com a Caixa Econômica Federal e o BNDES um contrato de 400 milhões de reais para o financiamento da obra. A formalização do acordo, porém, não esclarece as dúvidas sobre a frágil engenharia financeira e a falta de garantias para uma construção que consumirá quase 1 bilhão de reais.
O acidente foi provocado por um guindaste que despencou ao içar a última das oito peças que compõem os arcos superiores da arena. Com 114 metros de alcance, a máquina era a maior em operação no país, alugada pela construtora Odebrecht para montar a parte superior do estádio, a um custo de 12 milhões de reais por mês. Há três possibilidades em investigação: problema mecânico, falha humana ou deslizamento do solo. Funcionários da Odebrecht relataram que, na manhã do acidente, alertaram os engenheiros sobre um possível deslizamento de terra na base do guindaste, mas nada foi feito. A polícia, a Defesa Civil e o Ministério do Trabalho fizeram perícias no local. Enquanto os laudos não saírem, os trabalhos ficarão paralisados — pelo menos no setor onde houve a queda. O tempo dessa interdição determinará o tempo de atraso na entrega do Itaquerão. No momento do acidente, Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians e coordenador da obra, estava em uma sala no empreendimento resolvendo as últimas pendências para a assinatura do contrato com a Caixa e o BNDES. Sanchez é um personagem central na confusa história do Itaquerão. Filiado ao PT desde 2009, ele convenceu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a abraçar o projeto. Quando a Copa foi confirmada no Brasil, em 2007, a hipótese de que um estádio do Corinthians fosse usado era tratada como um devaneio. A opção óbvia era o Morumbi, pertencente ao São Paulo, que precisaria de reforma. Mas, quando Lula entrou em campo, o jogo virou. Ele convenceu a Odebrecht, que hoje financia suas viagens internacionais, a construir o estádio. Acompanhou de perto a obtenção do empréstimo do BNDES. E pressionou o então prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, a emitir títulos municipais que ajudaram a bancar parte da obra. Procurou financiadores para a parte provisória do estádio, que será paga pela cervejaria Ambev. Lula, na prática, foi o fiador do Itaquerão.

Havia ainda uma barreira a ser transposta. A legislação impede que bancos emprestem dinheiro a times de futebol. Por isso, Odebrecht e Corinthians fizeram uma manobra financeira: criaram um fundo imobiliário para separar o Itaquerão dos demais bens corintianos. O Corinthians é cotista majoritário do fundo, mas a construtora tem participação até que a obra seja quitada pelo clube, o que tem prazo máximo de quinze anos. Quando o estádio começar a funcionar, parte da receita da bilheteria e do lucro do clube estará atrelada por contrato ao fundo, que é responsável pelo pagamento da dívida. Assim, caso o clube tenha seus ativos bloqueados judicialmente em algum processo, a arena não será afetada — e o pagamento do empréstimo continuará acontecendo, pois estará associado à bilheteria dos jogos. O ¬BNDES aceitou essa garantia para emprestar 400 milhões de reais ao fundo. Mas, pelo seu regimento, era necessário que um banco intermediasse a negociação.

O Banco do Brasil foi o primeiro a se interessar, mas acabou considerando as garantias insuficientes. Lula entrou em campo novamente e ajudou a convencer a Caixa Econômica Federal a atuar como intermediária. No contrato assinado na semana passada, foram dados como garantia do empréstimo metade do Parque São Jorge (a sede do Corinthians), imóveis e investimentos da Odebrecht. Além, claro, da força política do ex-presidente. A demora para a liberação do financiamento oficial com taxas camaradas obrigou a construtora a fazer dois empréstimos a juros de mercado, com Santander e Banco do Brasil, o que gerou um custo extra de 80 milhões de reais, elevando o orçamento do estádio a 900 milhões de reais.

Há problemas ainda com a outra fonte de financiamento do Itaquerão, os certificados de incentivo ao desenvolvimento (CIDs), títulos emitidos pela prefeitura de São Paulo, que podem ser usados para quitar impostos municipais. Dos 420 milhões de reais prometidos em CIDs ainda na gestão Kassab, apenas 95,7 milhões já foram liberados. Esses títulos são vendidos a outras empresas com um deságio de 3% a 8%. O prejuízo será de ao menos 20 milhões de reais para o fundo. "Se começar a desconfiança sobre a obra, os títulos vão valer menos", preocupa-se Andrés Sanchez. Por fim, o Corinthians ainda não conseguiu vender o naming rights do estádio — o direito de batizar a arena, que poderá render até 400 milhões em vinte anos.

Com tantas incógnitas, o futuro do Itaquerão será o principal assunto do sorteio da tabela da Copa, nesta sexta-¬feira, na Bahia. "É o estádio mais investigado, mais visto, mais falado, mais olhado, mais tudo", desabafa Andrés San¬chez. "Para o bem e para o mal."

Fonte : Veja

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